O telefone tocou. Não reconheci o número e nem me lembrei dele.

Também não reconheci a voz. Até a fatídica pergunta:

-“Você não lembra de mim?

Era “você”.

Como eu não soube? Como minha guarda estava baixa, a esse ponto?

Culpa do tempo? Pode ser. O tempo que me fez te esquecer, mesmo que por determinado período. O mesmo tempo, que me trouxe outras pessoas.

Mas a marca indelével está lá, cravada no subconsciente, daquele jeito que as marcas ficam: pra sempre. Elas podem apenas estar mais leves, menos doloridas, mas permanecem até no máximo virarem lembranças, e elas evocam sentimentos.

– O que você quer? – Por que mexer em águas passadas?

Todas aquelas perguntas voltam a tona.

Mas só consigo dizer: Oi, é você?

Passam milhões de coisas na cabeça. Não estou “escutando” nada do que  você fala.

Só consigo pensar: é claro, você quer se curar. Se recuperar. Encontrar o que você deixou pra trás. E eu? O “eu” não costuma importar pra outra parte, se ela não está emocionalmente conectada com você.

A razão fala mais alto. Emoção, fique quieta. Me deixe aqui, em paz, como eu estava.

Eu mudei. Apesar de abalada, eu mudei.

Eu não te quero mais.

Difícil dizer, difícil aceitar, mesmo porque te querer vai trazer à tona tudo aquilo que estava guardado, tudo o que eu dei de melhor pra você, e não recebi em troca.

Não sei o que eu disse, não sei que palavras balbuciei. Só tenho uma certeza.

Hoje, você não pode roubar meu melhor novamente.